'A Um Carneiro Morto' - Ao Dia da Poesia

"Misericordiosíssimo carneiro
Esquartejado, a maldição de Pio
Décimo caia em teu algoz sombrio
E em todo aquele que for seu herdeiro!

Maldito seja o mercador vadio
Que te vender as carnes por dinheiro,
Pois, tua lã aquece o mundo inteiro
E guarda as carnes dos que estão com frio!


Quando a faca rangeu no teu pescoço,
Ao monstro que espremeu teu sangue grosso
Teus olhos — fontes de perdão — perdoaram!

Oh! tu que no Perdão eu simbolizo,
Se fosses Deus, no Dia do Juízo,
Talvez perdoasses os que te mataram!"

Augusto dos Anjos
'Eu e Outras Poesias'


Fotomontagem LPZ

Insights da Pretinha: 'Espaço Íntimo'

Cheguei da rua falando sozinho:

LPZ
... as pessoas não negociam a passagem quando vêm em sua direção. As pessoas seguem em frente até a eminência do choque. Quando uma das partes não cede, soa a tradicional cantiga de palavrões. !@!#@#$%$¨¨¨&¨*#!$$@! Um improviso virtuoso em grotesquês...

Pretinha
...você esqueceu do rosto enfezado, do ódio encardido e a calçada mal pavimentada.

LPZ
Pretinha!
Pois é... o que acontece com a raça humana?



Pretinha
Tem gente demais!
LPZ
?


Pretinha
É. Tem gente demais! Ceder espaço a outro representa invasão do espaço íntimo. Tornou-se uma ameaça. Viver isso todo o dia, sistematicamente, enche o saco!

LPZ
Fico pensando em quando isso vai terminar...



Pretinha
Creio que os conflitos cessarão à medida que vocês forem se matando. Pois a população planetária de humanos ficará em níveis mais suportáveis. Evidente que as realidades são diversas e são estruturadas pela interlocução do homem com o meio em que vive. Mas, em termos gerais, meu argumento encontra bastante respaldo no comportamento de vocês.

***

PRETINHA EM ÓCIO CRIATIVO...
Pretinha é degustadora especializada em Alimentação Reciclada Fortuita
e é estudiosa do comportamento humano.

Luciano Pozino

Memória Fotográfica - 'O Sonho do Chefe Guerreiro'

“Os homens do governo, presidentes, ministros, legisladores, têm e dão ao povo a impressão de governar, mas quem na realidade governa é a burocracia. 

Que é a burocracia?

Havemos que filosofar um bocado para conseguir visão com perspectiva.

O 'governo' ou 'estado' nasceu do interesse do chefe guerreiro em dominar as massas humanas. Para exercitar o seu poder, o chefe delegava funções a capangas, executantes, prepostos, etc., e diluía neles a força concentrada em si.

Com o evolver das coisas a figura do 'chefe' foi passando da forma inicial de 'dono' ou 'senhor' para a “representante” das massas ou do povo. Surge a abstração “estado”. Nada mais é feito em nome do “chefe, dono e senhor; sim, do 'estado' ”.

Monteiro Lobato
em 'Prefácios e Entrevistas', de 1955.
Fotomontagem LPZ

Memória Fotográfica - 'Mundo Invisível'

"Nas salas da Belle Époque era obrigatória esta figura ornamental: — a escarradeira de louça, com flores desenhadas em relevo (e pétalas coloridas).

O curioso é que a ficção brasileira da época não tenha notado o detalhe. Não há, em todo o Machado, uma vaga e escassa referência, e repito: — a escarradeira não existia para o autor, para os personagens, nem para o décor dos ambientes."

Nelson Rodrigues
em 'O Óbvio Ululante'

Memória Fotográfica - 'A Narrativa do Conhecimento'


O conhecimento é uma narrativa ancestral.
Os primórdios foram registrados por todo tipo de memória.
Compilamos e nos reconfortamos com os fatos à moda da estética
que nossa condição humana permite perceber.

Luciano Pozino - Suando, frio.
Foto LPZ

Memória Fotográfica - 'MisciGena'

"Surgimos da confluência, do entrechoque e do caldeamento do invasor português com índios silvícolas e campineiros e com negros africanos, uns e outros aliciados como escravos.

Nessa confluência, que se dá sob a regência dos portugueses, matrizes raciais díspares, tradições culturais distintas, formações sociais defasadas se enfrentam e se fundem para dar lugar a um povo novo (Ribeiro 1970), num novo modelo de estruturação societária. Novo porque surge como uma etnia nacional, diferenciada culturalmente de suas matrizes formadoras, fortemente mestiçada, dinamizada por uma cultura sincrética e singularizada pela redefinição de traços culturais delas oriundos. Também novo porque se vê a si mesmo e é visto como uma gente nova, um novo gênero humano diferente de quantos existam."

Darcy Ribeiro
em 'O Povo Brasileiro' - 1995
Fotomontagem LPZ

Agonia de Um Filósofo

"Consulto o Phtah-Hotep. Leio o obsoleto
Rig-Veda. E, ante obras tais, me não consolo...
O Inconsciente me assombra e eu nele rolo
Com a eólica fúria do harmatã inquieto!

Assisto agora à morte de um inseto...!
Ah! todos os fenômenos do solo
Parecem realizar de pólo a pólo
O ideal de Anaximandro de Mileto!

No hierático areópago heterogêneo
Das idéias, percorro como um gênio
Desde a alma de Haeckel à alma cenobial!...

Rasgo dos mundos o velário espesso;
E em tudo, igual a Goethe, reconheço
O império da substância universal!"

Augusto dos Anjos
'Eu e Outras Poesias' - 1912